terça-feira, março 13, 2007

Café e Cigarros


Bebia ontem um café e fumava um cigarro. Peço primeiro o café e depois tiro o cigarro do maço, depois o isqueiro do bolso, e acendo. Seria o primeiro do dia, e senti aquele pequeno prazer que apenas está reservado aos fumadores. Ali, num café, onde pela janela, vejo o tempo avançar. Uma idéia me assaltou, enquanto inalava o fumo: daqui a algum tempo (quanto?) não poderei fumar neste café. Daqui a algum tempo, não poderei fumar em nenhum café. Fumar será um prazer proibido, para desfrutar às escondidas do mundo. Já é, ou começa a ser. Deixou-me um pouco triste, nostálgico. Café, fumo. Papéis, canetas, conversas, tabaco, álcool. Tudo prazeres proibidos. Os escritores de agora enfiam-se em casa, teclam no computador, navegam na internet, mantêm um blog. Não falam uns com os outros, não discutem, não se fecham em grupos rivais, não criam polêmicas. Limitam-se a escrever, dispondo de ferramentas antes inacessíveis a todos. A pesquisa tornou-se fácil, pode-se sempre googlar, é difícil que surjam erros ou imprecisões de escrita, tudo está planificado à partida. No meio de uma solidão absoluta. Fumava, e enquanto desaparecia o cigarro, lamentava a crescente tendência que o estado tem para interferir nas liberdades do indivíduo. Há de chegar o tempo em que nem a derradeira liberdade (a morte) será permitida. A ditadura da maioria está a caminho, a democracia vai-se estagnando, cai numa inércia derrotista. As leis devem ser decididas pela maioria, claro, mas sempre respeitando os direitos individuais das minorias. Falamos sobre o prazer do café e dos cigarros, e especulamos sobre outras futuras proibições (descansem, chegará o tempo em que o estado decidirá que o café provoca uma série de doenças fatais, e que por isso não se deve beber em público, por uma questão de proteção das crianças ou por outra razão qualquer). O cigarro ia apagando, sentia-me nostálgico. Uma questão de menos importância, lá fora o mundo avançava num ritmo imparável, tudo me parecia condenado à partida. A tarde declinava sobre as casas.

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