
Nunca havia me interessado pelo trabalho do Clint Eastwood, apesar da grande semelhança física que meu avó tinha com ele. Bom, mas depois que vi Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood acho que perdeu um pouco aquela sua imagem de cowboy de western espaguete, porque por trás daquela carcaça, tem um homem bastante sentimental. Notei isso quando descobri que ele tinha filmado Bird, história sobre o Charlie Parker, em 1988. Daí pensei: "Um cowboy contando a história de uma lenda do jazz? Como assim?" E depois veio Os Imperdoáveis, filme total de cowboy bem fora de época, mas é um clássicão. Bom, eu assistia Bonanza e Chaparral...rss... Brincadeira à parte, Os Imperdoáveis é um excelente filme de cowboy.
Eastwood foi longe. Em Um Mundo Perfeito (1994) já mostrava alguns traços de sentimentalismo, mas foi em Pontes de Madison que o cowboy fala realmente sobre o amor. Mas de uma forma que nunca vi até hoje em nenhum outro romance já visto. Bem contado, As Pontes de Madison desenha um romance absolutamente perfeito. Parece até que o roteiro brinca com os minutos, arrastando as cenas, como se quatro dias pudessem ser mais importantes que uma vida inteira. E podem. E são. Pouco menos de 100 horas que valem uma eternidade.
Em As Pontes de Madison, Clint é Robert Kincaid, um fotógrafo da National Geografic que está no Iowa para fotografar antigas e famosas pontes cobertas para a revista. Meryl Streep é Francesca Johnson, uma dona de casa que trocou a Itália pelo sonho de viver na América. Casou-se com um soldado, e anos depois se vê criando os dois filhos do casal na paisagem bucólica de uma fazenda em que pouca coisa acontece, e vive-se a vida porque se acorda todo o dia, e não porque se têm sonhos. Perdido, o fotógrafo pede informações à Francesca, cuja a sua família foi para uma feira agropecuária, e apenas ela ficou em casa.
Os dois passam quatro dias juntos, se apaixonam, descobrem que só amaram uma vez na vida e a vez é aquela e são obrigados a escolher entre ficar ou fugir. A encruzilhada abre diversas possibilidades e questionamentos. O amor, tal qual o conhecemos, sobrevive a rotina? O passado pode ser esquecido como se queimássemos uma folha de papel e jogássemos as cinzas pela janela? É possível amar e não estar com a pessoa amada? Então Robert e Francesca são condenados a viver o amor em silêncio. E não existe amor mais forte que este, pois "o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente", e como carregar por toda uma vida um amor que só durou quatro dias? Amando. É cruel e inconcebível pensar assim, mas apenas quem ama verdadeiramente pode entender que após encontrar a pessoa amada, o mundo ganha um novo significado, e a vida se transforma em uma estrada de mão única cuja última e única parada é chamada de fim. O amor justifica a vida. Melhor sofrer por amor que viver sem amar, diria o poetinha.
É realmente um filme soberbo, com uma direção impecável que fala sobre almas gêmeas de forma belíssima. Prova que só amando é que vamos correr o risco de sermos amados e, com sorte, sermos eternamente felizes.
Clint Eastwood abusa do direito de ser comovente em uma cena clássica: na chuva, Robert pára no meio da rua enquanto o marido de Francesca, que voltou com os filhos, faz compras. A cena se arrasta e Francesca segura a maçaneta da porta do carro com tanta força que deve ter sentido o objeto atravessar seu coração. Ela quer deixar o carro. Ela quer correr na chuva para o seu amado. Ela quer deixar a fazenda para trás, seus filhos, uma vida sem sonhos, mas a razão está ali despejando um mundo de motivos para que ela deixe o amor virar a esquina e partir para sempre, para longe de seus olhos, longe de seu corpo, mas não longe da alma. Ela se desespera, chora, e volta a viver porque viver é preciso, afinal, acordamos todos os dias a espera do fim. E com o fim, a crença no reencontro. Injusto? Não. O amor não tem nada a ver com justiça. O amor é maior que a vida. E talvez você entenda isso melhor quando tiver aquela certeza que nós só teremos uma vez na vida. Quando isso acontecer, tudo fará sentido. E amar em silêncio não será tão inconcebível. Porque enquanto o corpo sente falta do toque, a alma está totalmente completa. E, sabemos, um dia todos vamos ser apenas poeira no chão. Ou nos arredores de uma ponte.
Quase ao final do filme, quando Francesca pede aos filhos que aceitem seu último desejo, dizendo que deu sua vida à família, e quer deixar para Robert o que restou dela, é impossível não entregar os pontos, as lágrimas, o coração e a alma para Clint Eastwood. Ele conseguiu algo que poucos conseguem: retratar o amor sem ser piegas ou cínico ou vingativo. E com isso, conseguiu filmar uma pequena obra-prima, mais uma de seu excelente currículo como cineasta. Um filme soberbo.
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